quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Um embuste chamado Homem


Crê-se na valorização do homem desde o berço, na boa educação, no trato, na boa formação, nos “20 valores”. Espera-se que entre na Universidade e que em cinco anos se torne no médico, no advogado, no doutor ou no engenheiro que babe de orgulho o paizinho e a mãezinha. Deseja-se que o primeiro emprego seja então uma coisa em grande na firma referencial e, daí ao sucesso, apenas um passito!
Nos entretantos da vidinha, não seria má ideia preocuparmo-nos com o paralelo caminho da personalidade. Alcançar os “20 valores” e usá-los como arma obsessiva e naturalmente estúpida no dia-a-dia, parece-me – digo eu – “ligeiramente” autista! Por isso, preferirei sempre uma nota mais modesta na escola e os “20 valores” do carácter.

Ser-se vertical num país corrupto, dir-me-ão, será inglório. Ser-se vertical nunca será descabido, defendo eu. E por mais que todos se unam a uma voz a bradar de peito feito a sua verticalidade, aos poucos, com a cadência certa do tempo, tantos se perdem pelos passitos certos desta coisa de crescer…

Falta-me pachorra e tolerância, radicalizo-me a velocidades estonteantes, e não me apetece dar a outra face. Que raio, eu não sou Messias nem tão pouco, cristão! A minha fé sempre foi a crença numa humanização que infelizmente parece decidida a passar-me a perna. Por este andar, um dia destes encontrar-me-ão a converter-me num qualquer templo religioso deste (ou de outro) mundo. Mas a realidade é demasiado esclarecedora, e isso queda-me, distrai-me e frustra demasiadas vezes. Aos poucos, o Homem corrói-me, e envergonha tudo aquilo que edifiquei na ideia concreta do que é sê-lo com letra grande. É latente a ausência dos paradigmas mais sagrados, em lugar de uma constante afirmação ignóbil de egoísmo, arrogância, estupidez exacerbada. O homem de letra pequena já se merece a si mesmo por esta altura…

Esta coisa de querer ser correcto entedia, é quase contranatura, enfada no trabalho, na intimidade, para não falar das esferas politicas e mediáticas, onde o plástico ganhou avassaladoramente a corrida pelo pedestal idolatrado de um povo teimoso e vidrado, embebedado pela hecatombe da vidinha, com ou sem “20 valores”!
Esgota-se todos os dias esta ideia que ainda hoje me inspira de tentar ser vertical, recto. Mais que os valores financeiros, que a carreira, que o dinheiro, é no carácter que me escudo para viver a vidinha, pois – defendo – só assim o resto fará sentido e trará o doce sabor da realização pessoal.

Eu tento.

Eu espero, ainda espero que as mutações deste mundo tragam de volta alguns dos pilares mais distantes deste Homem. Ainda espero, mas com inegáveis contornos de melancolia e de desgosto. Soa-me a tardio…

Hoje, sou um jornalista com saudades de o ser.

Hoje sou um músico que gostava de ser jornalista.

Perdoe-se-me este laivo de arrogância. Tenho-o por direito próprio. Estou cansado.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Perdoem-me lá esta coisa de ser de esquerda!



Podia resvalar facilmente pelos clichés que se usam sempre que o “25” se aproxima, mas não. Podia alinhar pelos saudosistas mais ou menos ignorantes ou pelos pseudo-fascistas que ainda pensam como latifundiários, mas falidos. Dirão que a culpa foi da “abrilada”, do “desastre”, mas não.
Abril há-de ser sempre motivo de conversa mais ou menos fundada, sempre apaixonante e desgarrada. E se posso reconhecer os excessos da época, também posso facilmente diagnosticar os argumentos de quem sofreu bem fundo na pele e na carne o dedo censor, sádico, estúpido e sagaz dos salazarentos que ao longo de 50 anos julgaram ser Portugal, ainda que “orgulhosamente sós”!
Nasceu torto, é um facto, mas (ainda) acredito que se pode endireitar, assim o Zé Povo ganhe uma consciência que tarda em chegar. Nos entretantos de um país que teima em não o ser, aguentamos, estóicos e com capacidade ímpar de sofrimento, as manhas e a louca ambição dos actores de uma tragédia a que arriscam chamar democracia. Os párias que se apoderaram das terras, dos sonhos e das gentes conspurcaram o mesmo Portugal que enaltecem na sombra, enquanto as suas Fundações “limpam” a imagem possível de uma gentalha que merece pouco mais que nada. Corruptos, vendidos, oportunistas, elitistas, mentirosos são epítetos que se lhes assentam que nem luvas da mais virgem lã!
E numa semana em que uma sondagem de um matutino a quem agradeço a oportunidade de ter sido escriba diário publica um gráfico que “diz” ser Mário Soares o “politico com a imagem mais positiva” juntos dos portugueses, fortalece em mim o misto de amargura e decepção que me é oferecido desde que me conheço como gente. E envergonha quem coerentemente ajudou o sonho a crescer. Álvaro Cunhal, Francisco Sá Carneiro, entre outros, foram Senhores de convicções, porventura díspares, que rapidamente relegam para a fossa quem ousou pensar, vender e aproveitar-se da democracia como sua.
Um estado social será sempre – para mim – a melhor forma de organizar um país, de fazer um país, e não será nunca o seu fracasso culpa dele mesmo, mas antes da perversão constante e arrogante que este e outros democratazinhos de trazer por casa protagonizam, aparentemente, ad eternum! De democratas, terão apenas a presunção de o ser. Na prática, talvez por serem mais espertos que o salazarento, são mais esguios e matreiros, fazendo do sangue de quem engrena os dias o seu cálice mais apetecido.
E se me lembro sempre da frase de Joaquim Letria (“Se todos os filhos da puta se lembrassem de voar, deixávamos de ver o sol!”), cresço, talvez ingenuamente, com a premissa impregnada de que um dia as coisas poderão ser diferentes. Mais que um desejo, é uma crença, é “a” crença de uma vida que me castiga numa “crise” que não criei e para a qual não contribuí! Antes se responsabilizassem os pais de todo este pântano, precisamente os mesmos que aparecem nos gráficos e nas sondagens dos matutinos. Sem reservas, sem apelo, sem falsos pudores e colocando de vez os pontos nos “is” de um país que teima em não o ser.
Passam 40 anos, talvez pouco tempo para a História se poder escrever e ensinar, mas tempo suficiente para se perceber o que não se quer e ter a coragem inerente para mudar. Todos os dias, pouco a pouco ou radicalmente, mas mudar!
E se pude nascer e viver em paz (podre) naquilo a que chamam democracia, perdoem-me lá esta coisa de ser de esquerda e ter a liberdade consequente de hoje, mais do que nunca, ter querido nascer mais cedo para, pelo menos ter vivido a noite de “24”. Como isso é impossível, serei “apenas” um tipo de esquerda, apartidário, de valores firmes e cimentados que sabe o que quer e o que não quer, que acredita, ainda que muitas vezes à lei da força, que Portugal poderá ser ainda aquele país que espreitou pelas portas que Abril abriu…

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Como se faz um pesadelo

Num país sonhado digno, reeinventado insuficientes vezes por quem o pensou e fez por ele, sobram sempre as ilusões mais ou menos vãs e uma insistente consagração de vitória. Talvez por esta última se alimentem tantas bocas ingratas, sujas e prostituídas que outrora cuspiram na glória dos afoitos e dos corajosos que sonharam. Hoje, são as mesmas bocas sorridentes que batem de palma no peito e vomitam as mais cruéis e assassinas palavras, encadeadas em discursos de trazer por casa, de troikas, déficits, ecofins, fmi's, entre tanta outra  lama que, sorrindo, atasca um país que se quis digno durante tanto tempo...
Hoje, parece fútil sonhar um país. Dizem uns que a globalização fez das suas, outros que a federação Europa é uma questão de tempo (logo que o sul se vergue definitvamente aos vizinhos de cima). Ser-se 'desinquieto' e inconformado é motivo de gozo. Caminhar numa manifestação de protesto é coisa de pedinte. Reclamar quando se tem razão parece desnecessário. Gritar com as veias a rebentar por uma cólera alastrada parece incipiente, como se um louco gritasse fechado dentro de uma caixa de acrílico.
E depois, no fim de tudo isto, ainda se surpreendem pelas excessivas reacções de quem sofre na pele, na carteira, na alma e, sobretudo, no sonho, os efeitos (dos mais nefastos que a história pode contar) de uma canalha que bateu nas costas de quem sonhou, que se acotevelou atrás para aparecer nas fotos de posteridade, e que burocratiza diariamente um país imaginado por si para espezinhar quem verdadeiramente faz do condado uma nação, todos os dias, sobrevivendo como pode ao olhar maquiavélico e sádico de quem domina o Terreiro do Paço, S. Bento e Belém como se um país se resumisse a três quarteirões, como se o mais iluminado dos sonhos de nada valesse, como se as gentes fossem instrumentos mudos e estúpidos da tecnocracia vaidosa e gananciosa chefiada pelos proxenetas e pelas meretrizes que tornam um sonho lindo num bordel reles de beira de estrada... 
Eu sonho.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A Inércia, a parvoíce e uns filhos da puta!

 
 
 
Cresci a aprender que Abril fora uma conquista gigante que os militares lusitanos levaram a cabo, primeiramente, nem tanto pelo povo, mas feitas as contas, baralhando e voltando a dar, a verdade é que as motivações ficaram sempre para segundo plano, face ao que se conseguiu nesse dia.
Cresci orgulhoso dos cravos e da relativamente pacífica maneira de levar para baixo um regime que, por tempo julgado infindável, se ocupou de tornar ainda mais pequeno um país cuja história falará sempre mais alto.
Cresci um pouco mais e comecei a deixar de parte algumas coisas que aprendera mais cedo, não me faziam sentido, apenas. Achei ideias e argumentos descabidos, a partir de determinada altura, purgando a informação e retendo a que me soou real e fidedigna.
Crescer tem sido uma permanente novidade, uma vez que quando penso não ser surpreendido, algo ou alguém me arregala os olhos de espanto! Esperava, mais cedo ou mais tarde, que a inércia de um povo secular se diluísse por entre os quilómetros de aldrabices e mentiras que deixou nas mãos de vasto rol de experimentalistas desprovidos de sensatez e altruísmo, sugando o que de melhor Abril proporcinou, a liberdade.
Não sei se as coisas se manterão. À vontade de mudança e inconformismo de alguns, pesa ainda uma maneira de viver que grande parte do Zé Povo alimenta apoiado num "american dream" à laia do velho continente, onde só falta (!?) mesmo a alimentação mediterrânica converter-se em carne picada e o azeite ser substituído pelas molhangas do Tio Sam. O problema é que foram as terras desse "velhote" que deram o tiro de partida para os tempos de crise que a senhora Merkl agora reclama serem da exclusiva responsabilidade dos pobres latinos que, inertes, têm sustentado décadas e décadas de existência na capacidade invulgar de se desenrascar, sempre que os problemas influam directamente com a hora da bola e a eventual ausência da esplanada.
A questão é que se tem generalizado e, por consequência, esquecendo-se que tal como nos States imaginados por Romney existe felizmente um Obama, também por cá há gente a gritar "Sim, nós podemos!" e a fazer diariamente deste país algo mais sério e capaz que um Parlamento repleto de párias assegurando a sua féria e levando a comidinha à boca de meia dúzia de agiotas e oligarcas sádicos que tornam a Economia a mãe de todas as políticas...
Sobra um pormenor. É que a canalha que se perpetua quase por linhagem directa, continua a gargalhar e a escarrar em cima de quem LHE produz o Mercedes, a Louis Vitton e outras siglas que envaidecem pais, filhos, netos e amiguinhos de uma Máfia que deixa a napolitabna a léguas de distância. Acusar-me-ão de contradição ao generalizar por esta altura. Enganam-se. Não o faço. O problema é que os sérios e bem intencionados não estão na política e já há muito se afastaram. Por inércia? Não creio. Por vergonha de 38 anos que se encarregaram de encher um Zé Povo de sonhos e ilusões, ensinando-lhe que o Salazar era um sacana de um ladrão, etc...
Cresci... e hoje se calhar não era má ideia começar a ensinar às crianças que o "seu" país foi feito por lacaios da ambição desmedida, como Soares, Silvas, Loureiros, Sócrates, Catrogas, Constâncios, Gaspares, Barrosos, Santanas, entre outras dezenas largas de senhores que alicerçaram Portugal numa mescla de nojo, mentira, deslumbre e roubo.
O Zé Povo, inerte, ficou a ver, a rir-se, a fazer do Estado um pai que lhe diz o que há-de ou pode fazer, e a consolidar a posição de parvo que atingiu os píncaros até há pouco tempo...
Pode ser que a crise arregale os olhos de espanto e abra a consciência e os horizontes a quem nunca pensou possível... e assim fique no passado a inércia e a parvoíce de muitos, do Zé Povo e principalmente de quem tem vergonha de lhe pertencer.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

"(...) A viagem levou-o ao mundo que deixara de conhecer. Os homens caídos na berma, os odores da podridão, o grito da noite ecoado em toda a cidade. Ficara-lhe o gosto do abismo no cheiro inconfundível das brancas trevas, apressadas a subi...r ao cérebro e a perpetuar a ilusão de uma loucura sã... O sorriso estúpido avermelhado arregala-lhe o mundo e descobre-lhe a vida reinventada para as próximas horas! Sorri, oferece as mais estridentes gargalhadas à noite e à cidade, grita, gritos dançados e ridículos, chama o 'seu' nome, chora, desespera, cai, chora ainda mais, e a calçada fria é, por agora, o colo... A viagem termina (...)"

sexta-feira, 25 de maio de 2012

A meio passo da loucura...

O desespero irrompe como nunca, inclemente, destruindo os mais belos sonhos que construí no fim da adolescência, quando me imaginei a amar de sorriso estampado nas ventas! Hoje, como há muito não o queria reviver, entrego-me aos braços enrugados e peludos da loucura, desbravada em mim com a impiedosa dor que me castiga a alma e o corpo!
Quedo-me à força bruta do destroço mais cinzento e ardido, prostrado à solidão, à enchurrada de lágrimas e de frustração que me inunda a sala alentejana de meus pais, onde falta o meu avô Amadeu! E que falta me fazes! Escondo-me aqui, no que resta da minha Irlanda e de um maço de cigarros outrora partilhado. Esqueço-me de ser feliz. Já nem sequer me procuro. "Meu Deus!", quem me dera que me fosses real em mim, que habitasses esta maldita sala alentejana que me traz o fel que há muito tempo não me temperava!
Já nem sequer me arrisco a dizer que é melancolia, porque já a ultrapassou há muito. O precipicio da loucura é ventoso, fustiga-me como mil punhais sangrando-me o corpo num acesso sádico e tremendo de gargalhada!
Perdoe-me quem não mereceu de mim a nobreza que ofereci a outros. Garanto-vos que não foi por mal, jamais! Castiguem-me, se quiserem, será justo. A dor e a angústia unem-se como há muito não o faziam! Hoje, sugeriram-me o desespero, "beijaram-me" como nunca Judas o ousou fazer. Riram-se, juntas, na minha cara chorada por mil saudades do que nunca fui e pelo desgosto latente do que sou! Porque é que, por uma vez, não sigo a intuição e me defendo da queda!?
Puta que pariu a seriedade, a nobreza, o cavalheirismo, o sentido de humor, a escrita, a voz, a camaradagem, a educação, o charme, a postura! Puta que pariu a inteligência, a cultura, o canto, o toque, o fado! Puta que pariu o futuro!
Então e eu? Então e a reciprocidade? E a cumplicidade? E a verdade??
A verdade é que não sou mais do que um tormento gotejado em cada nota de um Fado Menor, um fardo de mim mesmo, um sonho triturado pela maquiavélica engrenagem de um mundo pequeno demais para quem ama. As pessoas já não amam! É coisa que dá trabalho, e isso chateia... As pessoas omitem, iludem, dão palmadinhas nas costas e acham lindos os nossos sonhos, acham sempre lindos. Porque são nossos, e isso não lhes dá trabalho nenhum. Faz-se o elogio da misericórdia, como se esse fosse o caminho natural para nos abortar o desespero. Puta que pariu a misericórdia! Então e eu?
Eu? Eu tenho passado a vida a iludir-me com a certeza da ode ao amor, de que tudo faz sentido por aí. Eu dou os meus cento e tal quilos em entrega total e disponibilidade para estar, ser o primeiro ajuda, para amar desinteressadamente. Mas isso é pedir demasiado, dá muito trabalho!... E mais trabalho dá aturar um tipo armado em lírico que deseja apenas ser feliz... amando.
Ganha-me a ilusão. E nada mais.
E hoje, mergulhado num misto de álcool, desgosto profundo, frustração, e uma revolta desmedida, sou apenas aquilo que, afinal, tenho sido toda a vida: um tipo charmoso que recebe elogios múltiplos de meia dúzia de pessoas, discreto, triste, frustrado, que cada vez menos se ilude com o desfecho dos sonhos. Puta que os pariu!
Então e eu? Eu fico, uma vez mais, comigo. Vencido. Por amar...

domingo, 6 de maio de 2012

E o sorriso aqui tao perto...



Há demasiado tempo que aqui não vinha. Também é verdade que há muito tempo não me encontrava. O caminho de regresso não foi fácil, nunca o é, andei meses a fio ocupado com a melancolia de sempre e a tentar saber porque é que, com tanta gente para visitar, ela me "escolhe" sempre a mim. Enfim.
Tentei saber de mim em mil pessoas, noutros tantos locais mais ou menos recomendáveis. Assustei-me muitas vezes com aquilo que pensei ser eu. Pensara ver-me em diversas situações, imaginei-me, sonhei-me. Tudo em vão... Tenho escrito, não aqui, mas o importante é que tenho escrito. Afinal, tem sido sempre assim desde que me conheço com as minhas parcas virtudes e a mais estúpida sensação de desgraça que me ocupa há demasiado tempo. Tanto tempo!
Adio ainda a "visita" ao meu velho Amadeu (creio ainda que é na tua campa, meu avô, que estará o Santo Graal que me salvará da loucura), mas continua a faltar-me a coragem, não sei se por medo de inundar de lágrimas as moradas dos outros desgraçados que vivem contigo, se com o mais que certo medo de não escapar mesmo à loucura. Mas sempre "te" disse que iria, não sozinho (com medo não sei bem do quê, lá está!), mas irei em breve. Tenho coisas para te contar. Está prometido. Fui habituado a cumprir as promessas pelo meu pai e pela tua amada filha...
Numa altura em que volto a sonhar, o tormento da derrota ressurge com a pujança fiel a um toiro enraivecido. É raro sonhar (a exemplo da melancolia, tem sido sempre assim), na verdade acho que nunca o soube fazer. Como agora, é em jeito de avalanche e com um trote largo e desenfreado que tudo acontece. Sonho ser feliz, e só isso é já suficiente para todos os seus paradigmas se encavalitarem, em barda, na tentativa de uma teimosa e adiada concretização. Luto por isso, talvez como nunca. Afianço que é chegada a hora certa para o fazer. Mereço-o provavelmente pelo que tenho sido e procurado ser ao longo de todos estes anos, sobrevivendo à angústia, à melancolia, aos destroços do caminho... Tenho sido estóico nessas glórias, reconheço-o, mas de pouco me valeram para levantar o queixo.
Hoje, há um estranho optimismo que, a pouco e pouco, me invade dias e alma. Estou alerta para a eventualidade de sorrir, e aposto nisso com certeza inviolável, partilhando finalmente tudo o que sou e o que tenho sido, nomeadamente as mais arrependidas e dolorosas etapas de uma estrada onde falta o asfalto há muito. Parece sair-me de cima cada tonelada que fiz minha sem saber muito bem porquê ao longo do meu tempo, de cada vez que me desfio aos "seus" ouvidos. À estranheza e à novidade do meu sorriso, respondo apenas com o sonho. E que melhor maneira de responder agora que sorrio!?
Há muito que aqui não vinha, é um facto, mas sonho que aqui voltarei não sei quando e escreverei sorrindo como um louco, não aquele que conheço há 32 anos... O outro.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

"É como diz o outro"... São 32!


Não quis rambóias, festarolas mais ou menos embriagadas. Desta vez, preferi deixar o meu amado Alentejo antes de tempo e voltar à capital (actividade que tem ganho uma cadência anormal nos últimos tempos...). Precisei de me reunir comigo mesmo em altura de perceber que o envelhecimento precoce começa mesmo aos 30 e que, em dois anos, a velocidade das horas precipita-se, vertiginosamente.
Lisboa recebeu-me, nostálgica, sádica, como se o seu sorriso de Tejo me tapasse como um bébé antes de começar as travessuras. Deu-me a noite, um Fado Cravo sublime, deixou-me a sós, reunindo-me comigo mesmo, e quando mais precisei dela, voltou-me costas. Raios a partam!Uma vez mais, a minha reunião não teve consequências, e o escriba esqueceu-se da caneta para escrever a acta..
Houve o colo de dois amigos dos "tais", dos que sabem que nao é preciso chamá-los, e por ali se alimentaram histórias, nostalgias e sonhos, muitos sonhos. A noite de sono tornou-se transtorno, tentei durante esse período um novo encontro, mas rapidamente me deixei ir embora...
Miguel Guilherme e Bruno Nogueira foram os anfitriões do meu apoteótico regresso ao Teatro. "É Como Diz o Outro" (recomendo vivamente) deixou-me os maxilares à beira do desmoronamento, e durante uma hora e meia, partilhei gargalhadas genuinas, num espaço onde quse tudo ficou lá fora, e em que me tornei "eu". Foi a prenda que mereci, que me impus, e foi tão bonito regressar a ti...Houve algo de mágico a espalhar-se que não sei nem quero tentar explicar...
Lisboa revelou então uma face desconhecida de mim, uma candura única que me deixou encontrar-me ao longo da noite, coerentemente, desprezando o passar das horas e os consecutivos telefonemas que inundavam os telefones para dar a beijoca e o abraço dos "32". Urgiu algo mais importante, determinante, o mais significativo capítulo de uma vida. Foi bom renegar a tecnologia, foi bom sorrir, abrir o coração, foi profundamente bom. A magia do momento diluiu frustrações e revoltas, alimentou ilusões, e o Tejo - ali ao lado - deixou que a lua cheia furasse o breu, e a muralha com que tenho construído um "castelo" finalmente vulnerável, susceptível e à mercê da vida... A reunião correu bem, foi a primeira a ter direito a acta, gostei do encontro, e ainda por cima, no dia em que comecei a entender o envelhecimento. Foi bom cortar as amarras e deixar apenas as águas fazerem o seu trabalho. Foi importante a minha velha Lisboa. Houve o brilho no olhar, os trejeitos da ingenuidade, a partilha, o entendimento, o mistério, e "aquele" sorriso, e houve um dia de aniversário diferente de todos os outros 31... Singular, reconfortante como nenhum outro, e belo, profundamente belo...
A unicidade do dia fica eternizada numa linda foto a preto e branco que roubei e ofereci... Ilumina-me dias e alma.
Obrigado...

domingo, 15 de maio de 2011

Notícia de última hora...


Quando há cerca de um mês aqui me deixei levar por emoções cruéis no adeus a um amigo, não esperava que em pouco mais de 30 dias a vida se encarregasse de me esbofetear uma vez mais, com os mesmos trejeitos de malvadez e de sadismo... Um velho amigo, daqueles que desejamos perservar, não apenas porque achamos legitimado o egoísmo de o ter sempre junto a nós, mas sobretudo pela sua excepção enquanto ser humano, partiu este fim de semana, a tocar a sua guitarra portuguesa. Assim mesmo. Da forma que - arrisco - qualquer músico pretende acabar a estadia entre os vivos.
Sem falsos lirismos, e numa altura em que se enchem telejornais com as tricas e as troikas de politicos de trazer por casa, em que descubro sempre novas justificações para a demência do Jorge Jesus, em que me reinvento heroicamente para sobreviver num país pouco mais que ingrato, e em que me preparo psicologicamente para mais um assumo de ignorância e estupidez do Zé Povo no dia 5 de Junho, nessa mesma altura o meu amigo João tocava os seus últimos acordes na sua guitarra, com o sorriso de sempre e com a alegria que, derradeiramente, acamou nas doze cordas do mais belo instrumento musical do universo!
O país pouco se importou com isso (e não seria de esperar outra coisa), os sócretinos mais ou menos denunciados, alaranjados ou simplesmente rosas, distribuiam beijocas na ignóbil velharia que encheu autocarros e pavilhões, havia comentadores em horário nobre a quererem juntar ao rebanho os que não puderam ou quiseram entrar nos autocarros, e falava-se de "pesos pesados", "perdidos na tribo", nos números do euromilhões, no que se fazia com ele, ouvi até que o chefinho do FMI quis ter mais olhos que barriga com uma moçoila (mais ou menos com a mesma sangria de quando sentou as carnes por cá)...
Tudo se conjugou para mais uma enchurrada de entulho e podridão nas nossas vidas, enquanto tu partias, meu amigo. Não acordaste para contar aos teus as graçolas mais ou menos inspiradas do teu país, e mais uma vez dei por mim a equacionar o sentido da vida, a pô-lo à prova, em xeque, a tentar vislumbrar uma razão minimamente convincente para a tua precária saída de tudo isto. Em vão.
E a verdade, meu amigo, é que acordei para contar aos meus, não o desprezível quotidiano das 13h em ponto, mas a mais feroz de todas as notícias do dia: "O Chitas morreu!". Essa teria sido digna de abertura na voz da Clara de Sousa. Porém, a tua grandeza não se coaduna com a pequenez de quem teima em sê-lo, e preferimos, tu, eu e os "nossos", manter a discrição ditada pelo urbanismo da nossa canção e, ao longo de um eterno dia, não consegui desprender-me do teu sorriso de sempre.
Enchi um copo de vinho para te brindar. Fumei um cigarro contigo. Cantei para ti... Cantei por ti!
E tu sorriste... como sempre!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Cruel este adeus que não sei dizer!

A vida ocupou-se de me dar mais uma bofetada durante a tarde de hoje. Ao fim de anos de encontros e desencontros, de partidas, de sapos engolidos, sorrisos amarelos, azedos, a vida chicoteou-me a alma da mais cruel das formas e trouxe-me de volta à lembrança as piores e mais marcantes imagens.

Hoje lembrei-me da morte, do adeus aos meus avós, a alguns amigos que partiram cedo demais, lembrei-me da angustiante e indescritível imagem do meu irmão a desafiar o destino (foi há 14 anos e não há um dia que não recorde esse malfadado dia de Julho!), e deixei-me mergulhar numa melancolia chorosa, agreste e suplicada. Lembrei-me do quão fraco e fugaz sou quando me confronto com a mais elementar lei da natureza. E fiquei triste, senti-me mais triste que o Fado Menor, mais só e desamparado que uma criança perdida. Quedei-me a um abismo desconhecido que, sem discussão, me visitará sem hora marcada na agenda.

A sorte de um sol esplendoroso esgotou-se ao entrar na sala. Lá estava ele, prostrado, magro como um cão vadio, com as cores desmaiadas, olhar fixo, esbugalhado, clemente. A vida já morre dentro daquelas quatro paredes, e a brutalidade da imagem sente-se à flor da pele, como se o anúncio do fim gargalhasse ecoando nos meus ouvidos. Não me aguentei muito tempo, não consegui cinco minutos de coragem e estoicismo perante tão indizível e negro quadro. A sensação de impotência e de frustração tomou-me sem autorização prévia, arrebatando-me e levando-me a um desespero envergonhado que derramei já na rua, sozinho, em dois cigarros de enfiada...

Hoje, como ontem, custa-me dizer "adeus". Nunca o soube fazer com a elegância de Humphrey Bogart, teimo em não ceder ao convencional aceno, ao beijo e ao abraço. Falta-me sempre algo mais, falta-me engenho para rejeitar esta secura que é minha, este desapego espiritual que certamente me ajudaria no processo. E, mais uma vez, escondo-me no meu choro envergonhado e só... Quis ser eu naquela cama, quis que fosse ele a chorar, e não eu! Se a puta da morte tivesse cara, esmurrá-la-ia, hoje, com cadência infindável, bárbara e desenfriada!

Hoje, pela primeira vez, despedi-me de um amigo a quem escasseia sofregamente a vida.

Hoje, uma vez mais, chorei genuinamente.

Hoje, como sempre, não entendo...


ps. Este texto é dedicado aos que mais gosto e que me deixaram. Às minhas avós Joana e Maria, ao meu avô José que não cheguei a conhecer, ao meu inspirador avô Amadeu, ao meu amigo Dinis (que teve a coragem de se zangar com este país e partir, eu sei que sentirás as minhas palavras), ao Mascarenhas, e a tantos outros... e é invariavelmente dedicado ao meu amigo Joaquim Catita, a quem a estúpida morte já lhe sussurrou o fim.

Custou-me tanto, mas tanto, despedir-me de ti, meu amigo! Estarás sempre em cada Fado meu!... até à (minha) finitude física. Porque hoje morri um pouco mais...

segunda-feira, 11 de abril de 2011

"Ajuda externa" para brincarmos todos juntos!



Depois de ao fim de 31 anos não me cansar de ouvir o meu pai a desfazer-se em diatribes a cada aparição televisiva do Sr. Soares, constato que a socialice rosa mantém a bitola a um nível pouco ou nada recomendado. Depois de Governadores do Banco de Portugal, apologistas da privatização, cortadores de benefícios laborais e sociais (conquistados, não em Abril, mas nas revoluções do séc. XIX!), tecnocratas e descarados agiotas, surge ainda um engenheiro de fim de semana armado em salvador de uma pátria que há muito o deixou de ser.

Este é o país que se orgulha dos cravos sem sangue mas que o derrama, com sádica passividade, nas trincheiras de quem realmente luta no dia a dia para, pelo menos, salvar a dignidade possível. Culpar os mais mal pagos e mais explorados pela "falta de produtividade" e pela "tanga" é, no mínimo, irresponsável, mas permitam-me que acrescente mimosos adjectivos como sacana, nojento, vil e desprezível.

Trazer-se o FMI para ajudar a "salvar" o que resta é, em suma, o coroar da desonra com que esta canalha se emancipou das saias da mãe para brincar com os seus (boys) amigos aos ricos e aos pobres, arranjando para isso, brinquedos como bancos privados que são pagos pelo público, aeroportos e comboios de alta velocidade que ainda não arranjaram poiso fixo enquanto se afere quantos (boys) amigos poderão ganhar mais uns euritos com as expropriações... Até lá, o recreio continua, ainda que os "professores" façam alguns avisos, em vão. A rapaziada está energicamente entregue ao jogo, sem pausas para sandes e laranjadas, e com consecutivas vitórias, a ambição desmede-se a cada segundo...

É neste contexto que o altruísta FMI vai também ele sentar as carnes em cima do Zé Povo, com direito a flatulência e tudo! Caricato é parte do Zé ainda imberbe se fiar na Nossa Senhora e nestes estarolas e acreditar que a tão afamada "ajuda externa" sê-lo-á, na verdade. Mais, caricato é ver a alternativa "coelhina" cada vez mais inchada de bazófia e que não enjeita pegar nos dados para jogar um bocadinho. Diz que é a sucessão. Eu digo que será, para começar, a continuação. É que passado o tempo de adaptação (qual jogador da bola argentino!), a versão "orangina" do Sr. Engenheiro estará em pleno no tabuleiro e surpreendendo ou não o Zé Povo menos deslumbrado, "contratou" um reforço de peso para a jogatana ao "pote", o tal Nandinho que salvou vidas no Senegal e que estava farto da política partidária...

A festa continua, e agora juntam-se a nós, em jeito de intercâmbio, a malta fixe da UE e do Fundo. Como diria o Zeca (e ainda bem para ele que já não assiste a isto!), "traz um amigo também". Afinal de contas, o Zé Mário Branco, no Inverno de 1979, também estava a brincar quando escreveu o FMI ("consolida, filho, consolida!"), afinal o que a malta quer é ser animada... E no meio de tudo isto, ainda se chama "intervenção" a dois tipos vestidos à 70's ou a uma Deolinda que diz que é parva. A brincadeira, pelos vistos, começa cá por baixo, num grotesco analfabetismo cultural de um Zé Povo que teima em não aprender, em não votar, em não ser Povo... Talvez por se sentir atónito e sufocado pelas nalgas de quem se sentou e senta em cima dele? Talvez. Mas não só...

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

"Parvo és tu que vais votar"


Se dúvidas ainda houvesse sobre em quem votar nesta contagem decrescente para mais uma destacada posição de miserabilidade do povo português, as televisões encarregam-se de esclarecer os mais atentos com sucessivas aparições dos "ilustres" beneméritos candidatos a perpetuar a pátria lusa tal como a conheço.
Falo em miserabilidade do Zé Povo, do ponto de vista de uma abstenção que se adivinha, no mínimo, anedótica. Creio que a ignorância se mescla muitas vezes com a estupidez natural de um Zé que ainda não interiorizou que a posição "Eu não confio em nenhum, não vou votar!" não é mais que um acto único de leviandade pouco mais que parola e que, em abono da verdade, não define posição nem tão pouco opinião. Bonito e original seria ver os vários candidatos, unidos, numa campanha de alfabetização em pleno horário nobre explicando ao Zé o significado da expressão "voto em branco"...
Mas não será sequer provável. Em vez disso, angustiar-nos-emos mais uma semana com a cadavérica presunção vencedora de Cavaco sorrindo, estático, a cada interpelação sobre o BPN, e com a nostalgia do Maio de 68 de um Alegre poeta com ataques de pânico quando se fala do BPP. Nobre medicina uma simpatia unânime mas descolorida, Moura é Defensor ainda não percebi bem do quê, o PCP lança para a corrida mais um dos nomes que ninguém se lembrará em Fevereiro (eu já tenho dificuldade em lembrar-me), e no meio de tudo isto, ainda temos um destemido madeirense a animar as hostes e, com efeito, a divertir o Zé Povo.
O circo está montado para mais um Domingo de festa e de passeios pelo Colombo, para orgulhosos democratas e faminta populaça ansiosa pelas 19h para saber das projecções. Portugal não vai parar, nem de perto nem de longe, até porque para mal dos pecados de muitos milhões, o Benfica não jogará certamente nesse dia. Logo, a ténue percentagem de cidadãos que levantar o nalguedo do sofá para perder 5 minutos e dobrar o boletim, será na manhã do dia 24, motivo de chacota pela larga franja de Josés e de Marias que acrescentarão ao "Não confio em nenhum, não vou votar", a provável terminação: "Parvo(a) és tu que ainda foste votar!".
E, no meio deste pestilento lamaçal de párias, ainda há quem se ofenda com a hipotética candidatura de Manuel João Vieira! Permitam-me uma brejeirice sulista: "Haviam de levar com um gato morto pelas ventas até ele miar!"... (pobre gato)

quarta-feira, 7 de julho de 2010

20 Kms...



É sempre ao fim da tarde...


Mais um dia. Virei costas à cidade. Não quis ficar. Achei o sol impiedoso demais para lhe dar o privilégio da minha idolatração, por ora. Não é a primeira vez que acontece. É curriqueiro, aliás. Tenho sempre saudades do Inverno, do minimalismo nas árvores, do cinzento e da chuva, do frio. E embora reconheça o deslumbre de um trigo pintado a ouro na rigidez fervilhante das tardes de Julho, teimo sempre em lembrar-me de que é no final do ano, no auge das lareiras e dos capotes, que tudo me faz mais sentido.
Hoje, a exemplo de tantos dias, voltei para casa com uma dolência bizarra, uma saudade sacana que não me deixou nem por um segundo ao longo de vinte quilómetros. A dolência é-me natural, intrínseca. A saudade nem por isso, não é de nada nem de ninguém, julgo. É apenas saudade, como se a sua natureza não precise de justificação. Carrega-me esta tendência doentia de a alimentar como se de um último Fado se tratasse, como a noite que no horizonte se apresta seja a despedida renovada, uma vez mais trazida sem aviso prévio.
Assobio, canto, mas nada resulta desta vez... Agonia-me o sufoco da inércia, o sol fugidio, o precipicio de sonhos, o medo do fim, não da morte, mas do fim de tudo o que amo numa vida que teima, sem rodeios, em me juntar à solidão do crepúsculo e me esconder do que de mais belo ele traz a esta terra.
Cheguei a casa. O sol desapareceu. Há um hiato de minutos intermináveis em que o mundo pára e onde apenas existe o sul. Sem norte... a alma desassossega-se e resigno-me num sádico cigarro. E é então que vinte quilómetros podiam muito bem ser 100 anos de Garcia Márquez...
E é sempre ao fim da tarde...

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Navegadores... à deriva


Urgem-me palavras e desabafos depois de mais uma demonstração da portugalidade por terras sulistas de África. Terei sido apenas eu a denotar que a inércia de Queiroz e a presunção do seu mais fiel discípulo CR9 cedo vaticinaram pouco mais que nada para a campanha mundialista? Quero acreditar que não.
O guarda-redes campeão nacional ficou de fora, Pepe parece ter caído nas graças do mister pois só assim (ou por meio de quimicas carnais!) se pode explicar que meio ano depois de ver a bola apenas pela janela "roube" o lugar, num ápice, a Pedro Mendes e desate a distribuir "mimos" pelas canelas de um qualquer adversário, por mais simpático e meigo que esse fosse!
O míster (eu acho que ele gosta que o chamemos assim) convoca então dois defesas direitos para depois, nos jogos decisivos, eleger a velocidade e a agilidade de Ricardo Costa... um defesa central que ainda anda a ver se faz alguma coisa da carreira. Liedson chegou a ser extremo-direito, Danny foi várias coisas e Deco, armado em salvador da pátria, deu ao país o privilégio de uma última presença na selecção de todos nós (e de mais uns quantos brasileiros) para usar o pouco tempo que teve em campo em jeito de turista octogenário da Baviera.
Cristiano Ronaldo provou em campo porque são realmente descabidas as comparações com Messi. Ronaldo, ainda hoje sem perceber porque é capitão, não se lembra por um minuto que o é. Messi, sem o ser, é líder. Ronaldo não enjeita um remate a 50 metros da baliza com dois ou três comparças a pedirem a bola. Messi quer é por a malta a jogar. Ronaldo é um borracho e quer ser ainda mais. Messi dificilmente o será. Enfim, altruísmo, simplicidade e espirito de equipa são termos riscados do léxico do CR9 fazendo-me lembrar muitas vezes um tipo simpático que me escancarava os olhos na adolescência e que passava as tardes de praia na Caparica a fazer malabarismos com a bola... sozinho, pois claro.
Queiroz, do alto da sua arrogância, crê que fizemos um bom mundial, depois de exibições defensivas muito boas. E só isso, porque ataque nem vê-lo. Pontas de lança? Para quê? Ambição? Isso não. Arrojo? Muito menos... Jogámos ao jeito da Grécia em 2004 mas com uma pequena diferença, a Grécia ganhou!
Curioso é o facto de no único jogo ganho em África, estarem apenas em campo jogadores portugueses. Sintomático ou acaso? Cada um pensa o que quiser, mas quanto a mim, e estou à vontade para me apedrejarem, desde o inicio que o meu pessimismo se revelou latente, e não é de agora. E nada tenho de xenófobo garantidamente porque se o fosse, não estaria nesta altura com saudades de Scolari... Porque é que estou então tão chateado? Perguntem ao Queiroz!... e ao Ronaldo... e ao Madaíl... e sobretudo a todos aqueles que felizmente ao longo de décadas me habituaram a gostar de futebol e da equipa de todos nós. Eles, tal como eu, sabem a resposta!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Ricardo Ribeiro à "Porta do Coração"


Nem sempre a vida sorri aos mais audazes. Contraria a afamada frase um homem que o tempo me deu o privilégio de conhecer adolescente. Consigo vê-lo agora como antes: camisa amarela, blazer quadriculado, calça preta, óculos de massa castanha e uma genuinidade sensível no canto do Fado Tango... "Minha mãe nasci fadista, mora Fado no meu peito".
Passou entretanto metade da minha vida, o gosto pelo Fado mantém-se intacto, refinou-se a paixão, o entendimento, a escolha. Aumentou o respeito. Sem veleidades nem caprichos de, a exemplo de tantos, enriquecer a algibeira com Amália, pedi guarida ao Fado para não me abandonar nunca mais. Tal como ele.
Volvem-se os tempos. Hoje sinto-me mais fadista, não apenas pela melancolia latente de sempre, mas também pela "Porta do Coração" que oiço ininterruptamente há dias. Ricardo Ribeiro mantém a genuinidade e potencia autenticidades em cada Fado, em cada poema que indiscutivelmente condiz com o homem. Ricardo, com menos de 30 anos canta ao som de uma viola baixo que há nove décadas premeia a excelência desta música a que se convencionou chamar "Canção Nacional". Como costumo dizer entre amigos, infelizmente não o é porque Portugal não a tem merecido, nem mesmo no presente em que a "moda" pegou e tanta gente se apoia em si para chegar "lá" acima. Mas o Fado resiste. Sempre resistiu.
Ricardo é o exemplo vivo disso mesmo e ao ver o olhar do meu pai preso ao tablier do carro com os olhos encharcados, herdo no momento a emoção e o orgulho por ouvir cantar desta forma quase divina e por ter o privilégio de um abraço a cada encontro. Ricardo Ribeiro está à "Porta do Coração" apenas quando quer sair de dentro dele...
Com efeito, não erro se disser que Ricardo é um dos mais fiéis depositários daquilo que se conquistou por Lisboa há mais de 100 anos. Se o Fado me lisonjeasse com procuração, diria que é uma tremenda honra tê-lo por perto.
Fernando Maurício e Manuel Fernandes estão felizes, Ricardo, não duvido.
A nobreza da arte revê-se na fidelidade de sentimentos, no arrojo dos sonhos e numa capacidade ímpar de tocar. Está ao alcance de poucos. Está ao alcance de ti...

Como espectador, aplaudo-te entusiasticamente de pé, e agradeço-te.
Sois grande.

Estranhos caminhos católicos...


Não sei sinceramente o que vai na cabeça dos alegados representantes da Fé católica no planeta Terra mas, talvez por obra e graça do Espírito Santo que resolveu passados 500 anos fazer justiça, se por a "aldeia global" ser isso mesmo, sacerdotes de ocidente a oriente desataram em jeito de sofreguidão a levar à letra a "proximidade" para com os mais novos, não para as malfadadas aulas de Religião e Moral, mas antes (eufemizando) para um "policiamento de proximidade".
A promiscuidade carnal não é de hoje. Em tempos - descobriu-se recentemente - os túneis subterrâneos do Convento da Cartuxa (Évora) com ramificação directa para o celibato feminino de paragens limítrofes escondiam dezenas de crânios de recém-nascidos. E se é seguro que a cegonha que vem de França não conseguiria chegar ao subsolo, estou então praticamente convicto de que foi milagre!...
Eu até sou aquele herege armado em chico esperto vanguardista e arrojado que defende que um tipo que opta pelo sacerdócio ou que sente o chamamento do Todo Poderoso deve ser um tipo comum, casado ou em união de facto, perfilhando ou contribuindo directamente para a procriação e consequente nascimento da criançada que tanta falta faz ao mundo. Ora, expliquem-me então como o distinto Ratzinger pode então defender que Deus perdoa tudo aos sacerdotes e, por outro lado, coloca os divorciados directamente na cruz, "sem passar pela casa de partida e sem receber dois contos"! Estranha esta justiça de Deus apregoada por esta canalha que se mantém de olhar mole e misericordioso proclamando a igualdade entre os homens enquanto o resultado do "habemus papa" continua a sentar as carnes numa cadeira de oiro maciço!
Se calhar seria boa ideia dizer ao Sr. Bento XVI que esta gentinha (continuo a eufemizar) deita por terra o mito secular de que os comunas comiam as criancinhas! Mas quer-me cá parecer que o líder da igreja católica (infelizmente para os crentes, digo eu) dirá um dia do alto da varanda da Praça de São Pedro que tudo isto foi uma calúnia e que as criancinhas de todo o mundo alucinaram e que tiveram visões... Todas excepto a Jacinta, o Francisco e a Lúcia.
Jesus Cristo, se um dia Resolveres reaparecer, por favor não Te esqueças desta canalha!

sábado, 6 de março de 2010

"Paz, pão, povo e liberdade" (Mafra, 2010)


Pedro Passos Coelho, José Pedro Aguiar Branco, Paulo Rangel e agora um tal de Sr. Castanheira são, para já, os candidatos à liderança do PPD-PSD (estou crente que ainda possam aparecer mais três ou quatro, bem ao jeito do Partido do Povo do Cambodja). Dentro de uma semana ganharemos imagens de jovialidade e boa disposição em todas as estações lusas de TV que entretanto vão esfregando as mãos de contentes, na eminência destes "malucos do riso" deliciarem um povo inteiro com a fuçanguice do poleiro laranja...
Na ausência de Santana Lopes (que aqui lamento profunda e consternadamente) e expectante até ao último segundo pela candidatura de Marcelo, vou viajando pela fantasia de imaginar estes quatro senhores a entrarem por entre o fumo espesso, de óculos escuros, ao jeito do distinto júri dos ídolos (mas sem a respeitável senhora brasileira), tudo isto sempre em "slow motion"...
Curiosa é esta tendência cada vez mais assertiva de o PPD-PSD (sempre gostei da sigla) se minar a si próprio. Já se fazem debates entre candidatos nas televisões, inventam-se argumentos em directo para distanciar pontos de vista, maquilham-se semblantes com seriedade e futurismo e discutem-se problemas para os quais todos eles estão afincadamente decididos a resolver. Muito obrigado por existirem!
Rangel é o tipo que a meu ver será o mais consensual, de ar simpático, simples, humilde, daqueles que mantém orgulho no pai sapateiro e na mãe doméstica, de cabelo sempre meio despenteado, com uma generosa bocha semelhante à minha e com o fatinho que não foi comprado na Rosa & Teixeira. Aguiar Branco é o "primogénito" de Ferreira Leite, o menino que tudo aprendeu com distinção e que, alcançados os cabelos brancos, dispara aos novatos do partido com quatro anos de militância (!) chamando a si a arrogância e a omnipresência dos dinossauros cor de laranja que continuam a achar que tudo está bem e que foram os cabrões dos comunas que mataram o Sá Carneiro! Quanto a Passos Coelho, realço o tom de voz eloquente e radiofónico, a postura em que se misturam laivos de "bétice" e uns inequívocos sinais "sócretinos" que ainda os divide porque Passos Coelho não vai a Out Lets, não tem o número de telefone do presidente da Prisa, da ERC, da Refer, da PT... Repito, ainda.
Em relação ao Sr. Castanheira, se tiverem informações mandem... Diz que quer fazer do PSD um partido mais "verde".
Já falta pouco... Pessoalmente estou curioso para ver e ouvir os discursos dos candidatos e as análises imparcias (!?) da Constança Cunha e Sá na TVI. Quero ver o "circo" mediático das luzes e dos desconhecidos emplastros que disfarçadamente se posicionam na trajectória dos holofotes, o espírito de entrega, de missão, do "Paz, pão, povo e liberdade...", e anseio pelas intervenções dos "ilustres" Mota Amaral, Valentim Loureiro ou Alberto João Jardim, ao fim ao cabo aquela dúzia de oligarcas que vão andar por esses dias de sorriso cúmplice e bonacheirão, calmamente aguardando os resultados do sucessor de gente tão ilustre como "Zé Manel" Durão Barroso, o grande Santana ou a afável e cativante Ferreira Leite... Ui!
Até ao desfecho teremos, porém, que gramar o teatro dividido em tributos e lágrimas de emoção de cada vez que se evoca Francisco Sá Carneiro. Faz parte. Pena que da Social Democracia por si preconizada reste apenas o nome que, na verdade, ainda chega para encher as panças e os bolsos desta gentinha que teria que nascer três vezes para se poder intitular Social Democrata!
Mas não passarão nunca de "laranjas"... do chão.

quarta-feira, 3 de março de 2010

As Sinergias "do" Grupo

Já sabemos que o sistema económico-financeiro vigente nos últimos anos claudicou mas não seria má ideia pensarmos um bocadinho, não apenas nas repercussões e no que mudou, mas essencialmente no que tem de mudar. Sou um "menino" perto dos gurus com que felizmente tenho lidado nestes anos que levo de jornalista, porém esses sábios da labuta escriba inspiraram-me e abriram-me as pestanas que ainda não se queimaram para uma realidade que, na verdade, herdara já das minhas gerações familiares mais vividas – a nobre arte de trabalhar.
Há anos, curiosamente logo no meu primeiro emprego, deparei-me com um conceito a que simpaticamente alguém apelidou de "Sinergias de Grupo" que, na prática, significa o dobro ou o triplo do trabalho, a redução efectiva da qualidade de vida, o aumento da carga horária, em muitos casos a perda das melhores horas da vida social, para no final do mês, o ordenado ser exactamente o mesmo.
Ora, na óptica administradora, ganha-se a coesão da(s) equipa(s), o espírito de entreajuda, a redução de custos "colaterais", em suma ganha-se uma "galinha gorda por pouco dinheiro"… Do ponto de vista dos escribas, enquanto não se fartam e desembocam meia dúzia de enormidades do mais refinado léxico ordinário, as "Sinergias de Grupo" funcionam um pouco como a equipa de futebol da selecção nacional, em que 10 estróinas afincadamente suam a camisola e marcam 5 golos, mas feitas as contas é o Cristiano Ronaldo que saca as fãs do Zé Povo nacional e não só…
Um respeitável indivíduo que me concedeu uma entrevista há dois anos dizia-me que "Amizade paga-se com amizade e trabalho paga-se com dinheiro", um aforismo digno e – arrisco - aplaudido de pé por escribas e administradores mas que não passa disso mesmo, um aforismo, ao jeito de um "Em Abril, águas mil" ou um "Grão a grão enche a galinha o papo". E pego precisamente neste último para lembrar às administrações que o "grão" é o usufruto de umas dezenas de "artistas" que dançam a valsa de fato de macaco todo o santo dia contando os 6 euros para almoçar em meia hora na tasca mais próxima e que nas folgas vêem os filhos fazerem uma birra porque não acreditam que o papá está estoirado e precisa de descansar. A mulher fica normalmente do lado dos filhos e o período de descanso, que deveria ser para isso mesmo, potencia o mau humor, a ira e, em muitos casos, uma factura pesada que quem menos merece acaba por pagar!
Entretanto continuam à espera que no final do mês, o dia de "São Receber" lhes traga um "grãozito" extra para dar de comer aos "pintos"…
Sindicalista eu? Peço desculpa Sr. Administrador (vénia). Afinal faltam apenas 10 minutos para a uma da manhã… Vou voltar ao trabalho!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Esta coisa de ser do Benfica...


O meu benfiquismo é inquestionável, moralmente superior e de uma parcialidade que só encontra semelhanças nas intervenções de Rui Santos ou, no que se refere ao verdadeiro futebol, às prestações de Martins dos Santos ou Carlos Calheiros. Ser do Benfica nunca foi, alvitrem o contrário se assim entenderem, sinónimo de lucidez e sensatez, mas antes de uma brejeirice saudável que nos faz descarregar em cima daquele homenzito de negro vestido e nos seus "acompanhantes relax" das laterais toda a ira e o pasmo de quem, volvidos 20 anos, ainda vê gente a dizer que o Vata marcou mesmo com a mão... Eu não vi isso, mas pronto.
Há dias, esparramado numa cama de hotel, passei os olhos pelos "50 anos de Carreira" de Fernando Alvim, radialista/apresentador/ninfomaníaco/respeitável anarquista de ideologias e etiqueta, e dei por mim sorrindo, subindo pela cabeceira da cama à medida que Alvim desfiava adjectivos para sustentar esta coisa de ser do Benfica. Falou na "chama imensa", no inferno da luz, no Néné, no Chalana, no antigo Estádio da Luz, nas "Mines", e tudo isto em perfeita sintonia e ebulição era espumante insestentemente agitado e prestes a "explodir" enquanto a cama do Tivoli já se tornara no terceiro anel e eu já tinha comido meia sandes de coirato, um escorrido pingo de gordura na camisa, estava transpirado e chamava "boi" a quem de direito, e gritava o golo de Rui Águas pulando com a alegria de um recém-adolescente à beira da primeira masturbação... Isto é ser do benfica. Lamento o choque.
Quem não é está por esta altura abanando a cabeça com um sorriso irónico e exclamando "Este gajo está cada vez mais parvo!". Estarei, porventura, mas por razões que não me apetece desenvolver, não vá eu ser chamado à comissão da Assembleia... Estarei, porventura, mas nunca pelo Benfiquismo!
Os castigos do Vandinho, do Hulk e do Sapunaru!? Acho mal, foi pouco tempo! Então e o Hélton, o Fucile, o Rodriguez, o Ruben Micael? (Ah pois esse ainda não estava lá...). Mas agora já está e também conta!
Esta coisa de ser do Benfica tolhe o que resta da minha inteligência e do bom senso sempre que Javi Garcia entra a pés juntos e eu aplaudo ou quando dou por mim a afirmar que o português do Mantorras melhorou bastante e que ele continua a ser imprescindível no clube...
Esta coisa de ser do Benfica abarca uma democracia interna em que coabitam ricos e pobres, políticos, ladrões, Vale e Azevedo e Eusébio. Perdoamos tudo entre nós, nesta "maçonaria" laica, em que fazemos jus apenas a Artur Semedo ("A minha religião é o benfica!"). Entre nós, semeamos a concórdia, o objectivo comum, somos o sindicato mais unido do mundo (e o maior também) e deixamos divergências lá fora porque o estádio da Luz é o santo graal de todas as nossas vidas... BENFICA! BENFICA! BENFICA!
O quê!?!? O Sócrates é do benfica? Foda-se!!!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O Fado está na moda (estudo nocturno)


"O Fado é a mais representativa forma de arte portuguesa". A frase não é minha mas subscrevo-a. Não sei muito bem é se os portugueses se orgulham de ser representados por "ele". É que a discrepância entre o que se diz e faz é tal que em inúmeras situações sou obrigado a concluir que a alma lusa tem muito mais afinidades com a música de Nel Monteiro ou do malogrado Dino Meira.
Pelo menos, e a avaliar pelo comportamento do Zé Povo face a essa música e ao Fado, assim avento, tais são as semelhanças! A brejeirice mais primária da ode constante ao alcoolismo (vertente defendida como primordial!), a berraria apelidada de conversa com a boquinha bem juntinha ao ouvido do receptor da mensagem (que entretanto, atento, abre mais umas cervejolas enquanto parece que - consta-se - está alguém a tocar e a cantar qualquer coisita) ou a chacota gargalhada permanente, sem se saber muito bem do quê ou porquê, muitas vezes proveniente de um rosadito de pança cheia, camisita amarelada salpicada de tinto e a clássica meia branca (eu gosto particularmente quando o conjunto se compõe com um casaco de fato de treino!) são condimentos essenciais para quem defende que o "O Fado é a mais representativa forma de arte portuguesa".
Mas noto que novos fenómenos ocorrem neste apetecível e enigmático mundo fadista... A par da gente plebeia, temos (pseudo)burgueses na casa dos 30/40 anos que assumem postura de septuagenários ainda ressabiados com Abril! Gostam de toiros (ainda que não saibam o que é uma "verónica" ou um "tércio"), usam camisa de marca estrangeira (tem que ser estrangeira nem que seja vietnamita), apregoam herdades e mil conhecimentos importantes (mesmo que não cheguem os 4 euros para beber um gin tónico, bebida fina no meio) e chamam a si a arrogância e o pedantismo para compôr um bouquet onde pontifica uma galopante estupidez (cá está a alusão taurina, tudo bem portanto), a ignorância inseparável da presunção e a convicção premente de que D. Duarte Pio é secretário geral do Partido Comunista e de que Louçã será o "tio" herdeiro do trono português...
Curioso é o facto de plebeus e burgueses partilharem a ode ao alcoolismo, a brejeirice, a berraria pegada, o desrespeito e a chacota... Imprescíndivel mesmo é um caldo verde (com "chóriço"), um tinto (Cartuxa ou Teobar) e uma "jola", mas tem de ser Sagres porque a malta é patriota!
E tudo isto porque o Fado é "a mais representativa forma de arte portuguesa"!
És grande Nel Monteiro...