Hoje, parece fútil sonhar um país. Dizem uns que a globalização fez das suas, outros que a federação Europa é uma questão de tempo (logo que o sul se vergue definitvamente aos vizinhos de cima). Ser-se 'desinquieto' e inconformado é motivo de gozo. Caminhar numa manifestação de protesto é coisa de pedinte. Reclamar quando se tem razão parece desnecessário. Gritar com as veias a rebentar por uma cólera alastrada parece incipiente, como se um louco gritasse fechado dentro de uma caixa de acrílico.
E depois, no fim de tudo isto, ainda se surpreendem pelas excessivas reacções de quem sofre na pele, na carteira, na alma e, sobretudo, no sonho, os efeitos (dos mais nefastos que a história pode contar) de uma canalha que bateu nas costas de quem sonhou, que se acotevelou atrás para aparecer nas fotos de posteridade, e que burocratiza diariamente um país imaginado por si para espezinhar quem verdadeiramente faz do condado uma nação, todos os dias, sobrevivendo como pode ao olhar maquiavélico e sádico de quem domina o Terreiro do Paço, S. Bento e Belém como se um país se resumisse a três quarteirões, como se o mais iluminado dos sonhos de nada valesse, como se as gentes fossem instrumentos mudos e estúpidos da tecnocracia vaidosa e gananciosa chefiada pelos proxenetas e pelas meretrizes que tornam um sonho lindo num bordel reles de beira de estrada...
Eu sonho.